FUJITSU

  1. Página Inicial >
  2. Notícias >
  3. Artigos >
  4. Empresas se preparam para o novo SPB

Empresas se preparam para o novo SPB

4 de dezembro de 2001


Empresas

Começou a segunda onda do Sistema Brasileiro de Pagamentos (SPB), previsto para funcionar a partir de abril de 2002. A primeira fase envolveu o Banco Central e as instituições financeiras. Agora, as empresas do setor real da economia começam a acordar para as mudanças revolucionárias que o SPB irá causar nas suas finanças, com a introdução das transferências de recursos em tempo real. Luiz Gonzaga Murat Jr., diretor financeiro da Sadia:

Cansados de participar de seminários pouco esclarecedores sobre o SPB, alguns pesos-pesados do mundo empresarial - Sadia, Ambev, Camargo Correa e Cosipa - reuniram-separa discutir e testar, na prática, como o novo sistema irá afetar seu dia-a-dia.

O grupo começou, na terça-feira, 04/12, um workshop inédito sobre o SPB, organizado pela consultoria BDO Directa , a empresa de sistemas de gestão SAP e a fabricante de computadores Fujitsu . Citibank e BankBoston foram convidados para participar da experiência.

A idéia é aprofundar a discussão das implicações do SPB em cada uma das empresas. Até janeiro, o grupo irá se interligar e simular transações num ambiente idêntico ao do futuro SPB: com os bancos, o Sistema de Transferência de Reservas (STR) do Banco Central, a Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) da Febraban e as câmaras de compensação de títulos, câmbio e derivativos.

Se o SPB realmente entrar em operação a partir de 22 de abril - a estréia já foi adiada duas vezes pelo BC - , esse grupo terá uma enorme vantagem competitiva, avalia o consultor Antônio Hermann de Azevedo, da BDO Directa. "As companhias que estiverem mais bem preparadas para o SPB terão um enorme poder de barganha com os bancos", diz Hermann, que fez carreira no mercado financeiro (presidiu o Banco Itamarati e a ABBC) e agora passou para o outro lado do balcão. Das 100 grandes empresas que ele visitou nos últimos meses, somente duas estavam realmente fazendo a lição de casa do SPB: a Embraer e a American Bank Note , informa.

As mudanças que estão a caminho não são triviais. O SPB vai alterar profundamente a gestão de caixa das companhias ao introduzir pagamentos e recebimentos com troca de reservas bancárias on-line e em tempo real. Transferências a partir de R$ 5 mil somente serão concretizadas mediante saldo realmente disponível em conta corrente - ou seja, após a compensação efetiva dos cheques e dos boletos de cobrança depositados pelas empresas em suas contas correntes.

Hoje, as companhias verificam seu saldo de manhã e fazem pagamentos durante o dia, às vezes contando com o dinheiro que irão receber durante o expediente. À noite, tudo se resolve na compensação dos cheques e títulos, quando há o encontro de contas. "A compensação bancária é a maior prova de que Deus é brasileiro", brinca Hermann. O saldo contábil, portanto, basta para que os bancos autorizem as transferências de recursos durante o dia.

Com o SPB, o que vale é o saldo real, em reserva bancária. Por isso, as empresas terão de fazer um controle de saldo efetivo de hora em hora. Não adianta ter R$ 100 mil em caixa e tentar fazer uma operação de câmbio se o saldo estiver bloqueado pela compensação. Como o câmbio só será feito durante uma hora específica do dia, toda atenção será pouca. Quem não se programar direito e ficar a descoberto em algum momento poderá ter problemas, ou precisará "comprar" reservas dos bancos para não ficar inadimplente. Com o juro básico em 19% ao ano, qualquer derrapagem na gestão de caixa sairá bem cara. "Quem ainda não abriu o olho poderá ter um custo financeiro adicional quando o SPB começar", diz o diretor financeiro da Sadia, Luiz Gonzaga Murat.

A Sadia contratou a BDO Directa para fazer uma revisão completa de suas operações financeiras e adequá-las ao SPB. Os números são impressionantes e dão uma boa idéia da dimensão do problema. A empresa, segundo Murat, tem um movimento anual de caixa da ordem de R$ 7 bilhões, ou cerca de R$ 28 milhões por dia útil, em média. Seus caminhões fazem 12 mil entregas por dia no país. Recebem milhares de cheques dos clientes (padarias, supermercados etc.), que vão para a tesouraria da empresa e só viram dinheiro vivo após a compensação, até três dias depois.

Como seus recebimentos individuais geralmente são cheques inferiores a R$ 5 mil, e os pagamentos aos fornecedores superam esse valor, a Sadia precisa se preparar para não ficar à mercê dos bancos sob o SPB, nos dias em que as entradas de caixa forem menores que as saídas. Assim, está alterando sistemas de informática, procedimentos de pagamento e recebimento e de comprar e vender. O ideal, diz Murat, é receber em reserva (por transferência eletrônica com cartão de débito, por exemplo) e pagar com cheque o mais elástico possível. "Tem um mico solto na praça. O nome do jogo é empurrar o mico para frente", diz Murat.

Quanto maior for o número de bancos utilizado pelas empresas, maior será a dificuldade de conciliar pagamentos e recebimentos em tempo real. Para não chamar a atenção da concorrência, os bancos ainda não chamaram os clientes para explicar em detalhes quais serão seus futuros serviços no SPB. O BankBoston está fazendo uma experiência piloto com um grupo de seis empresas. Desenvolveu um programa que simula o conta corrente do cliente, destacando o que é saldo contábil e o que é saldo disponível. "Se funcionar, vamos colocar na internet", diz a diretora de SPB, Sandra Boteguin.